Feliz de quem tiver uma PEDRA em SAGRES

Palavras-chave | Keywords

"Boca do Rio" "Cabranosa" "Cerro do Camacho" "Concheiro do Castelejo" "Ermida da Guadalupe" "Farol de São Vicente" "Fauna e Flora" "Fortaleza de Sagres" "Forte de Almádena" "Forte de Beliche" "Gentes & Paisagens" "Geologia e Paleontologia" "História do Mês" "Martinhal" "Menir da Lomba da Góia" "Menir de Arneiros" "Menir de Aspradantas" "Menir de Bem Parece" "Menires de Milrei" "Menires de Santo António" "Menires de Vila do Bispo" "Menires do Monte dos Amantes" "Menires do Padrão" "Paisagens de Vila do Bispo" "Pedra Escorregadia" "Tales from the Past" "Vale de Boi" "Vale de Gato de Cima" 3D Abrigo Antiguidade Clássica Apicultura ArqueoAstronomia Arqueologia Experimental Arqueologia Industrial Arqueologia Pública Arqueologia Subaquática Arquitectura arte Arte Rupestre Artefactos Baleeira Bibliografia biodiversidade Budens Calcolítico Carta Arqueológica de Vila do Bispo Cartografia Cetárias Cista CIVB-Centro de Interpretação de Vila do Bispo Complexo industrial Concheiro Conservação e Restauro Descobrimentos Divulgação Educação Patrimonial EPAC Escolas & Paisagens de Vila do Bispo Espeleo-Arqueologia Estacio da Veiga Estela-menir Etnografia Exposição Farol Figueira Filme Forte Grutas Homem de Neandertal Idade Contemporânea Idade do Bronze Idade do Ferro Idade Média Idade Moderna Iluminados Passeios Nocturnos Ingrina Islâmico Landscape marisqueio Medieval-Cristão Megalitismo menires Mesolítico Mirense mitos & lendas Moçarabe Moinhos Museologia Navegação Necrópole Neo-Calcolítico Neolítico Neolítico Antigo Paleolítico Património Edificado Património natural Património partilhado Pedralva Pesca Povoado Pré-história Proto-história Raposeira Recinto Megalítico/Cromeleque RMA Romano Roteiro Sagrado Sagres Salema São Vicente Seascape Toponímia Vila do Bispo Villa Romana
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Carta Arqueológica de Vila do Bispo

1 Fase | Abril-Dezembro de 2014
Promotor | Câmara Municipal de Vila do Bispo
Arqueólogo Responsável | Ricardo Soares (CMVB)

Apresentação, objectivos & metodologia

O projecto que aqui se apresenta, denominado de Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo, encontra-se dividido em 4 fases, correspondentes aos anos previstos para a sua concretização e de acordo com os meios humanos disponíveis.
Para o efeito, o arqueólogo da Câmara Municipal de Vila do Bispo, Ricardo Soares, submeteu à respectiva autoridade tutelar (Direção Regional de Cultura do Algarve) um Pedido de Autorização de Trabalhos Arqueológicos (PATA), deferido em ofício datado de 02 de Maio de 2014 (Processo n.º DR/2014/08-15/16/PATA/2964 - C.S:121711), relativo à 1.ª Fase do projecto, a executar entre Abril e Dezembro de 2014.
Em Janeiro de 2015 encontra-se prevista a continuidade do projecto, na sua 2.ª Fase (Janeiro-Dezembro de 2015), período durante o qual será entregue, à Direção Geral do Património Cultural, o requerimento de renovação do PATA e o Relatório relativo aos trabalhos de 2014, em conformidade com o prazo estipulado no Artigo 7.º n.º 1, do Decreto-Lei n.º 270/99 de 15 de Julho.
Para além dos avanços científicos, fundamentais para o conhecimento e valorização do património cultural do Concelho de Vila do Bispo (arqueológico, histórico e etnográfico), também se intenta, com este projecto, ampliar a base de dados relativa ao património arqueológico concelhio, de forma a disponibilizar um instrumento essencial para uma boa gestão do território, cuja eficácia depende, necessariamente, da localização precisa dos vestígios, da identificação, caracterização e valorização de sítios arqueológicos com maior potencial turístico-cultural, e da consolidação de informação básica, sobre a qual se podem e devem alicerçar discursos de âmbito informativo e pedagógico, dirigidos, nomeadamente, à população escolar do Concelho e a todos os interessados na sua história regional.
Concluído o projecto, a publicação dos seu resultados encontra-se prevista sobre a forma de Carta Arqueológica, com edição da própria autarquia, segundo um modelo de inédita leitura integrada de todos os dados ao momento coligidos, propondo-se à comunidade científica e, muito particularmente, à comunidade loco-regional, uma completa e sequencial narrativa sobre a ocupação humana deste território ao longo de todos os tempos, de forma transversal e acessível aos diversos públicos. Até lá, de modo parcelar e sem prejuízo da publicação final, é nossa intenção partilhar informação relevante em apresentações públicas, locais e regionais, congressos nacionais e internacionais, artigos em revistas científicas e no sítio online criado para o efeito – Vila do Bispo Arqueológica.
Ao momento, já se encontra desenvolvida uma base de dados em software FileMaker, na qual foram incorporados todos os dados arqueológicos entretanto coligidos e relativos ao Concelho de Vila do Bispo, designadamente disponíveis na Base de Dados da DGPC (Endovélico), em bibliografia de âmbito regional, em relatórios de trabalhos arqueológicos realizados no Concelho e, sobretudo, em levantamentos arqueológicos precedentes: Antiguidades Monumentaes do Algarve (Estacio da Veiga, 1886; 1887; 1889; 1891; 1910); Levantamento Arqueológico do Algarve - Concelho de Vila do Bispo (Mário Varela Gomes e Carlos Tavares da Silva, 1987); Menires de Vila do Bispo - Inventário/Cartografia (João Velhinho, Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Vila do Bispo, 2005); Levantamento Patrimonial de Vila do Bispo (ERA-Arqueologia, 2009).
A criação de uma base de dados de raiz tem permitido detectar imprecisões ou duplicações de informação, possibilitando buscas rápidas e leituras fáceis – uma ferramenta fundamental para uma melhor compreensão da sequência e ritmos de ocupação neste território, munindo o arqueólogo de diversos conhecimentos de base para os trabalhos de campo.
A par destas fontes fundamentais, também tem sido dada privilegiada atenção ao registo de imprescindíveis testemunhos orais de uma população com potencial informativo sobre o território: pastores, agricultores, caçadores, pescadores, marisqueiros, guardas da natureza e antigos guarda-rios, enfim... gentes da terra.
O projecto aqui apresentado poderá diferenciar-se dos já referidos, e de forma inédita, por se tratar de uma investigação produzida no seio da própria autarquia, visando um retorno social e uma aplicação prática dos resultados, ultrapassando a lógica de pontuais empreitadas, desprovidas de uma merecida continuidade.
Além do conhecimento produzido e da sua instrumentalização, enquanto potencial ferramenta municipal, o projecto ambiciona desenvolver dinâmicas de envolvimento, estimulo e alcance sócio-cultural, com possível impacto na economia loco-regional.
Posto isto, a par da continuidade da extensa tarefa de preenchimento da referida base de dados, e reunidas as ferramentas necessárias, torna-se impreterível a aventura no terreno.
Nesse sentido, e nesta 1.ª Fase, compreendida entre Abril e Dezembro do presente ano, tem sido dada prioridade à relocalização, reavaliação, delimitação, registo e descrição de sítios e monumentos em vias de classificação, designadamente os conjuntos meníricos de Milrei e do Padrão (Raposeira, Vila do Bispo), com prospecções sistemáticas nas suas áreas envolventes, que, pelo facto de constituírem realidades contíguas, de difícil individualização, podem ser tratadas como uma unidade geográfica, extensível até às zonas costeiras, a sul, alcançando-se, assim, outras áreas de reconhecido potencial arqueológico.
Esta estratégia acaba por circunscrever uma área de actuação prioritária no território da Freguesia da Raposeira, recentemente integrada na União de Freguesias da Vila do Bispo-Raposeira, ainda que, tendo em conta a globalidade do projecto, se assume uma total liberdade de actuação em toda a área do Concelho de Vila do Bispo.
O projecto conta, à partida, apenas com o arqueólogo titular. Porém, os trabalhos de campo e de laboratório poderão receber outros contributos, designadamente de equipas de alunos de arqueologia da Universidade do Algarve, ao abrigo de protocolos de cooperação; de alunos de escolas loco-regionais, numa perspectiva de educação patrimonial; de equipas do Centro de Investigação Arqueológica de Vila do Bispo, projecto paralelo que pretende desenvolver iniciativas de integração da comunidade loco-regional, numa perspectiva de sensibilização cultural e patrimonial e de arqueologia pública/social; de equipas de espeleólogos do Projecto ProPEA (Projeto Património Espeleológico do Algarve) e do CEAE-LPN (Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza), organismo integrado pelo próprio signatário do projecto e com larga experiência em acções de prospecção espeleo-arqueológica.
Metodologicamente e no que se refere aos materiais identificados, estes são objecto de registo fotográfico, in loco, e de georeferenciação com GPS, sendo recolhidos determinados exemplares, segundo pré-definidos critérios de integridade, conservação e potencial informativo e expositivo.
Os sítios e monumentos, além de uma sistemática georeferenciação e do convencional registo fotográfico, são alvo de fotografias de enquadramento paisagístico e, nos casos em que se verifiquem indícios de aspectos decorativos (frequentes nos menires regionais), também merecem “visitas” nocturnas para uma melhor observação e registo fotográfico com técnicas dirigidas de iluminação rasante.
Os materiais recolhidos, depois de inventariados e integrados na base de dados, são tratados, marcados, descritos e pertinentemente documentados em registo fotográfico de estúdio e/ou desenhados.
A georeferenciação de realidades arqueológicas, históricas e etnográficas, é obtida com recurso a um aparelho GPS Garmin Dakota20, programado no Datum ED50 (European Datum 1950), exportado segundo um sistema de coordenadas UTM. As coordenadas registadas são descarregadas e organizadas no software Garmin BaseCamp e no Google Earth, enquanto ferramentas básicas de leitura dos dados e de planificação dos trabalhos de campo. A base de dados cartográfica e os necessários layouts cartográficos serão produzidos em colaboração com o Departamento de Informação Geográfica (SIG) da Autarquia de Vila do Bispo, permitindo uma futura integração no PDM do Concelho.
Ainda no que respeita ao registo fotográfico, realiza-se com uma câmara Nikon D90, com uma lente versátil (18-105mm f/3.5-5.6G ED VR), para os registos de campo, e com uma lente macro (55mm f/2.8), para o registo de materiais em estúdio.
A metodologia de prospecção traçada para a 1.ª Fase do projecto, tendo em conta os objectivos prioritários já enunciados, as limitações de tempo e o facto de os trabalhos contarem, à partida, apenas com um técnico responsável, que acumula outras funções no âmbito da arqueologia municipal, tem sido de início muito selectiva e consequente das acções de relocalização de realidades arqueológicas já conhecidas, pelo que as áreas alvo a prospectar são tendencialmente planificadas “passo a passo”, em percursos abrangentes entre os arqueossítios pré-seleccionados.
Claro que, nesta abordagem, além da relocalização, confirmação, reavaliação, delimitação e melhor compreensão de realidades arqueológicas conhecidas, também se procura, inevitavelmente, identificar expectáveis sítios inéditos – e as descobertas têm sido profícuas!
Atendendo às suas especificidades geomorfológicas, as áreas litorais, sobretudo da costa sul do Concelho, serão alvo de prospecções com atenção espeleológica, pontualmente realizadas com o apoio de equipas especializadas. Existem algumas cavidades cársicas identificadas no Concelho que ainda não foram objecto da devida atenção de uma investigação dirigida e que, muito naturalmente, tendo em conta os contextos culturais envolventes, se revestem de grande potencial arqueológico.
Toda a experiência adquirida pelo signatário nas referidas cartas arqueológicas da Arrábida, sobretudo na área da plataforma de abrasão do Cabo Espichel, revelam-se agora de grande utilidade no território de Sagres/São Vicente, por se tratarem de paisagens muito semelhantes nas suas características ambientais, geológicas e, de certa forma, arqueológicas.
Todavia, por muito que se pense conhecer um determinado território, o seu verdadeiro entendimento provém de uma experiência cumulativa, de um permanente dialogo entre o arqueólogo e a sua área de estudo, por exemplo: as condições de visibilidade dos solos alternam sazonalmente ao longo do ano e variam indeterminadamente ao longo dos anos; os terrenos lavrados, além de limpos de vegetação, são revolvidos, expondo eventuais vestígios arqueológicos, enquanto, depois de semeados, tornam-se “proibidos”; as áreas afectadas por incêndios, depois de “lavadas” pelas chuvas, também facilitam a actuação do prospector; os terrenos perturbados pela acção dos javalis são fossados, ao ponto de permitirem uma excepcional progressão na vegetação densa e a prospectabilidade em novas clareiras; os sítios arqueológicos em zonas costeiras, como será o caso paradigmático da estação romana da Boca do Rio (Budens, Vila do Bispo), são dramaticamente afectados pelo avanço das marés e pela erosão marinha, para não falar dos recorrentes atentados causados pela ilegal actividade de detectoristas de metais!
Todas estas condicionantes ou oportunidades, naturais ou antrópicas, sobretudo agrícolas e sazonais, obrigam o arqueólogo a estudar as dinâmicas e ritmos dos terrenos, exigindo pelo menos de 1 ano para serem minimamente registadas e entendidas. Estas dinâmicas vão, inevitavelmente, determinar as estratégias de prospecção pois, independentemente das áreas pré-determinadas numa ordem de prioridades, há que aproveitar as oportunidades de janelas de visibilidade no terreno, sobretudo em terrenos lavrados, ou aguardar por possibilidades de transitabilidade, respeitando os terrenos cultivados.
A região de Vila do Bispo era conhecida, até muito recentemente, como o “celeiro do Algarve”. Hoje, ainda que tendo perdido essa importância económica, as marcas são evidentes no impacto sobre sítios arqueológicos.
No caso dos menires, esse impacto é bastante evidente, sobretudo nos monólitos de menor dimensão. Encontram-se frequentemente fracturados e deslocados dos seus contextos de implantação original, em linhas de delimitação de propriedades ou em marouços, juntamente com outras pedras.
Em suma, a 1.ª Fase do projecto aqui apresentado, ainda que preliminar, será fundamental para, conforme expectável, se gerar uma dinâmica de investigação arqueológica que não se esgotará com a publicação dos resultados, dentro de 4/5 anos. O seu alcance poderá superar-se num irreversível projecto de continuidade, de relevante importância para um Concelho de grande riqueza, no que ao património arqueológico diz respeito, e que tem actualmente no turismo a sua principal actividade sócio-económica.


Como referido, a Base de Dados Endovélico, acessível no Portal do Arqueólogo da Direção-Geral do Património Cultural, constitui uma ferramenta indispensável à actividade arqueológica. Trata-se de uma base de dados de informação arqueológica, em parte disponível a qualquer interessado, com áreas de acesso reservado a profissionais. A sua utilização é facilitada por via de um motor de busca organizado segundo os seguintes itens:


A pesquisa por sítios arqueológicos inclui as informações sobre todos os vestígios de património arqueológico, resultantes de trabalhos de prevenção, salvaguarda, investigação e valorização patrimonial, desenvolvidos em Portugal Continental. A informação provém dos dados obtidos nos processos do arquivo histórico da arqueologia portuguesa e dos trabalhos de relocalização e identificação de novos sítios, realizados pelos serviços do estado. Encontram-se igualmente disponíveis, ainda que não de forma sistemática, as referências sobre vestígios arqueológicos em meio aquático, que consistem em achados na costa portuguesa, referências nacionais em águas internacionais e estrangeiras e referências tanto nacionais como internacionais em águas de países lusófonos. Os dados reflectem o estado actual dos conhecimentos e resultam da informação que é remetida diariamente ao Instituto, pelo que se encontra em permanente actualização. Os utilizadores registados têm acesso à localização geográfica dos vestígios arqueológicos disponibilizada em coordenadas geográficas no sistema WGS84 (World Geodetic System de 1984), usado mundialmente em cartografia e geodésica, nomeadamente nos aparelhos de GPS e na interface GoogleEarth do próprio portal.

Concelho de Vila do Bispo conta ao momento (Outubro de 2014) com 248 sítios arqueológicos inventariados na Base de Dados Endovélico, correspondentes a todas as épocas, desde o Paleolítico até "ontem", e a diversas realidades, assinaladas tanto em ambiente terrestre, como em meio marinho.