Feliz de quem tiver uma PEDRA em SAGRES

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O abrigo Paleolítico de Vale de Boi | Budens

'A Alegoria do Abrigo'
A mais extensa e uma das mais significativas jazidas paleolíticas conhecidas em todo o sul peninsular situa-se precisamente no nosso concelho, num abrigo rochoso em Vale de Boi (Budens). Identificado em 1998, foi, desde então, objecto de regulares campanhas arqueológicas, realizadas por equipas de arqueologia da Universidade do Algarve, coordenadas pelo Professor Nuno Bicho, contando com diversos patrocínios à investigação, nomeadamente do Instituto Português de Arqueologia, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, do Archaeological Institute of America e da National Geographic Society; e com variados estudos pluridisciplinares, envolvendo investigadores nacionais e estrangeiros, que têm vindo a partilhar os resultados dos seus trabalhos na forma de artigos, teses académicas e comunicações.
Numa uma área de dispersão superior a 10.000 m2, a investigação da jazida de Vale de Boi foi assim desvendando uma importantíssima sequência crono-estratigráfica, com registos que remetem para uma praticamente contínua presença humana, entre o Paleolítico Superior e o Neolítico Antigo, mais precisamente, entre os 33.000 (pelo menos!) e os 6.000 anos antes do presente (Bicho, 2004, 2006; Bicho et al., 2003; Carvalho et al., 2005; Stiner, 2003), um período no qual se marca a mais antiga datação radiocarbónica sobre vestígios humanos (Homo sapiens) de todo o sul peninsular e onde se distingue os traços culturais das comunidades que nestas paragens protagonizaram a transição do Paleolítico para o Neolítico, ou seja, o Período Mesolítico. Tendo em conta que a estratigrafia arqueológica ainda não foi integralmente escavada, até à sua base geológica, a probabilidade de se vir a obter datações mais antigas para este sítio é bastante elevada.
Os dados recolhidos até ao momento permitiram reconhecer as sucessivas ocupações de grupos de caçadores-recolectores, de mais de uma dezena de indivíduos, com uma estrutura económica complexa que inclui contactos e trocas inter-regionais, a longas distâncias, patentes na ocorrência de matérias-primas exóticas, importadas de distâncias superiores aos 1000 km, o que demonstra a amplitude de circulação destas sociedades, convencionalmente tidas como “primitivas”.
A escolha deste local para a implantação de comunidades de caçadores-recolectores-marisqueiros deverá relacionar-se com o facto de, a cerca de 100 metros, ter ali existido uma lagoa ligada ao mar (na actual Boca do Rio), que funcionaria como área de pesca, com fácil acesso à costa, e pólo de atracção de animais diversos. A partir do abrigo sob pala rochosa, formada num expressivo afloramento calcário, num ponto elevado que coroa a vertente esquerda do vale, seria possível dominar visualmente a caça que saciava a sede nas águas subjacentes.
Os vestígios arqueológicos concentram-se sob a pala do abrigo, parcialmente colapsada na actualidade,  estendendo-se pelo declive, em áreas de despejo de lixos que oferecem aos arqueólogos preciosas informações acerca dos hábitos quotidianos destes nossos antepassados. Mais abaixo, numa ligeira plataforma da vertente, as escavações revelaram uma área de maior concentração de vestígios e uma longa diacronia que termina superiormente nos 6.000 anos, ou seja, no dealbar do Neolítico Antigo e das primeiras sociedades de pastores-agricultores.
De entre a abundante e diversificada informação exumada em Vale de Boi, destaca-se a excepcional preservação orgânica dos ecofactos (ossos e conchas), uma tecnicamente impressionante colecção de pontas de seta, especialmente as do Período Solutrense (com 20.000 anos), e um interessante conjunto de artefactos de adorno e de matriz artística, designadamente produzidos sobre osso e conchas perfuradas, utilizadas como contas de colar. Mas, até à data, o mais excepcional elemento artefactual trazido à luz nas escavações foi, de longe, um interessante objecto de arte móvel: uma rara placa de xisto, com menos de 20 cm de largura, gravada com um conjunto de desenhos interpretados como representações de três auroques, ou de um auroque em movimento (uma espécie de grande boi selvagem, entretanto extinta). Esta placa poderá ser interpretada como um "objecto de bolso", eventualmente um "souvenir" trazido de outras paragens, utilizado em Vale de Boi enquanto modelo para eventuais réplicas, o que explicaria, assim, as outras placas identificadas e que apresentam apenas algumas inexpressivas garatujas.
Uma vez mais, surgem claros indicadores da importância do marisqueio para as economias locais. Uma parte substancial da dieta das gentes de Vale de Boi baseou-se no consumo de recursos marinhos, uma constatação relativamente excepcional, pois não tem sido essa a regra verificada em diversos sítios arqueológicos paleolíticos estudados um pouco por todo o mundo, onde, por comparação, a caça domina largamente.
Neste sítio foram recuperados abundantes restos de conchas, de diversas espécies: lapa,  mexilhão, vieira, berbigão, amêijoas, caracóis marinhos e de água doce, búzios e percebes. A actividade pesqueira foi residualmente detectada pela ocorrência de vértebras de cação. No que respeita à caça, foram registados restos ósseos de coelho, lebre, raposa, cabra, javali, perdiz e águia-real. Interessante será verificar que, juntamente com estas espécies selvagens, relativamente vulgares, foram isoladas outras, já não existentes na região, como o veado, o lobo, o urso, o lince, o burro, o cavalo e o auroque; mas também algumas, mais improváveis, como o golfinho (ou baleia) e o leão! Relativamente aos ossos de águia-real, devem remeter para a utilização de penas enquanto elementos de adorno ou para guias de flechas. Quanto ao leão, ao lince, à raposa e ao lobo, as suas peles seriam certamente bem aproveitadas. Os cetáceos (golfinhos e baleias) deveriam dar à costa, sendo "postumamente" aproveitados como excepcionais fontes de matéria-prima óssea.
Analisados os vestígios faunísticos de Vale de Boi, salta à vista a ampla diversidade de recursos alimentares explorados por estas comunidades paleolíticas, obtidos no marisqueio, na pesca e na caça, sendo ainda e naturalmente de admitir a recolecção de vegetais e de frutos silvestres, ecofactos difíceis de detectar pois os seus indícios raramente sobrevivem para o registo arqueológico.
Para fechar este já farto menu, em jeito de “sobremesa”, não se reserva uma “cereja no topo de um bolo”, mas sim... dois batráquios. Estes nossos antepassados eram realmente “bons garfos”... até se deliciavam com sapos... as coisas que os arqueólogos descobrem!
Os estudos paleoambientais nestas jazidas permitem reconstituir as paisagens de épocas ancestrais, designadamente a sua fauna e a sua flora, num momento em que o ambiente começava a estabilizar no sentido de um quadro para nós mais familiar. Os dados paleovegetais colectados em Vale de Boi, mas também no concheiro da Pedra das Gaivotas, em Sagres (Figueiral e Carvalho, 2006), e no concheiro do Castelejo (Soares e Silva, 2004), revelaram a presença do zambujeiro, como coberto arbóreo mais frequente na Costa de Sagres durante o Mesolítico e o Neolítico Antigo, mas também do sobreiro, do zimbro, da aroeira, do medronheiro e da cornalheira – um coberto vegetal muito semelhante ao actual, pelo menos nas áreas menos afectadas pela acção agrícola.
A agenda da investigação para a jazida de Vale de Boi inclui, para as próximas campanhas de escavação, um dos temas mais “populares” do panorama arqueológico internacional dos últimos anos – a verificação de uma muito provável presença do Homem de Neandertal (1) nestas paragens. Trata-se de uma questão de grande interesse e pertinência pois, sabe-se, que o extremo sudoeste da Península Ibérica terá constituído um dos últimos redutos continentais para esta espécie contemporânea dos primeiros Homo sapiens, o Homem Moderno... nós! A identificação e estudo de vestígios Neandertais poderá clarificar a problemática do seu desaparecimento: por assimilação genética pela nossa espécie, ou extinção por pressão humana?


(1) O Homem de Neandertal (Homo neanderthalensis) é uma espécie extinta do género Homo, que habitou a Europa e algumas áreas do oeste asiático entre 200.000 anos e aproximadamente 28.000 anos atrás, tendo coexistido com a nossa espécie, os Homo sapiens. Em Portugal encontram-se registadas algumas jazidas que atestam a sua presença neste extremo continental.


Ilustrações Vítor Fragoso